Você já viu isso milhares de vezes e passou batido. Você procura uma palavra e, logo ali ao lado da grafia, espremida entre duas pequenas barras inclinadas, encontra uma fileira de símbolos: /ˈwɔtər/, /əˈbaʊt/, /ˈvɪʒən/. Você até reconhece algumas das letras. Outras parecem ter saído direto de um livro de álgebra. Então você faz o que quase todo mundo faz: ignora os símbolos e tenta adivinhar a pronúncia lendo as letras — exatamente a única coisa que aqueles símbolos queriam impedir você de fazer.
Aquela pequena fileira é o Alfabeto Fonético Internacional (IPA, na sigla em inglês), e é o único sistema de escrita que diz a verdade sobre como uma palavra inglesa realmente soa. Todos os artigos neste blog dependem dele, porque não existe maneira honesta de falar sobre pronúncia em um idioma cuja ortografia parou de acompanhar seus sons há quinhentos anos. Esta é a página que ensina você a lê-lo. A parte tranquilizadora — aquela que ninguém menciona quando te entregam um pôster do tamanho de uma parede com cento e sessenta símbolos — é que você não precisa de quase nada daquela tabela. Você precisa das poucas dezenas de símbolos que o inglês americano usa e, dentro desse grupo, apenas uns dez que não são o que parecem.
O IPA é um alfabeto com uma única regra: cada símbolo representa exatamente um som, e esse som nunca muda. É para isso que ele existe, e é por isso que ele consegue fazer o que a ortografia do inglês não consegue. Você não precisa da tabela internacional completa. O inglês americano usa cerca de quarenta de seus símbolos: aproximadamente vinte e quatro consoantes e quinze ou dezesseis vogais. A maioria das consoantes tem o som da letra que você já imaginava, então o trabalho real é pequeno. Cerca de dez símbolos geram confusão autêntica: /j/ é o y de yes, não um j; /ʃ/ é sh; e o schwa /ə/, aquele e de cabeça para baixo, é o som mais comum do idioma. Duas pequenas marcações de acento tônico completam o conjunto. Aprenda isso e um verbete de dicionário deixará de ser decoração para virar um manual de instruções.
Por que a grafia mente e o IPA não
Comecemos com a palavra que dá nome a esta empresa. Water, escrita com um t no meio e um -er no final, sai da boca de um americano como waa-der: o t se suaviza numa batida rápida da língua, e o -er é uma vogal colorida pelo r, não uma vogal mais um r separado. Absolutamente nada nas cinco letras w-a-t-e-r te avisou sobre isso. A ortografia é um artefato histórico, congelado na época da invenção da prensa de Gutenberg e nunca atualizado. Desde então, ela vem mentindo silenciosamente para quem tenta aprender inglês.
E a mentira opera nas duas direções, o que torna tudo muito difícil de deduzir. Uma mesma grafia entrega vários sons diferentes: as letras ough representam uma vogal distinta em though, through, tough, thought e bough — cinco palavras construídas com as mesmas quatro letras em que nenhuma rima com a outra. Por outro lado, um único som se esconde atrás de muitas grafias: o ee longo de see também é escrito como ea em sea, ie em field, i em machine, ey em key e eo em people. Seis fantasias diferentes, o mesmíssimo som. Se você tentar ler a pronúncia do inglês pelas letras, vai errar na maior parte do tempo, e o pior de tudo: não saberá em quais momentos está errando.
O IPA foi criado para fechar exatamente essa lacuna. Sua regra fundamental é que a relação entre símbolo e som é fixa: um símbolo sempre escreve um som, e um som é sempre escrito pelo mesmo símbolo, não importa a fantasia que a ortografia tradicional tenha escolhido. /i/ é o som de ee seja a palavra see, machine ou people. Essa propriedade única é o grande segredo do jogo. Uma vez que você aprende a lê-lo, cada entrada no dicionário, cada palavra neste blog, cada transcrição fonética que cruzar seu caminho deixa de ser um enigma e passa a ser uma instrução precisa para a sua boca.
Um símbolo, um som — e apenas os que você usa
O Alfabeto Fonético Internacional completo é, de fato, enorme, porque foi projetado para transcrever todos os sons de todos os idiomas humanos: estalos de língua, tons, consoantes produzidas no fundo da garganta que o inglês nunca usou. É por isso que o pôster na parede assusta. É uma ferramenta global, e você está aprendendo só um sotaque de um idioma.
O inglês americano padrão utiliza cerca de quarenta desses símbolos. A contagem exata varia um pouco, por razões que veremos adiante, mas a estrutura é firme: cerca de vinte e quatro consoantes e por volta de quinze ou dezesseis vogais, dependendo de como você conta as que se fundem em alguns sotaques. Esse é o conjunto de trabalho completo. Esqueça o resto da tabela e você terá algo que qualquer pessoa pode realmente aprender em uma tarde.
E fica ainda mais fácil, porque a dificuldade não está distribuída de forma aleatória. A grande maioria das consoantes é representada pela exata letra latina que você já deduziria: /b/ é o b de bed, /p/ o p de pen, /m/ o m de man. Essas você já sabe; apenas não sabia que sabia. O problema se concentra em um grupo pequeno e perfeitamente mapeável — um punhado de símbolos de consoantes que parecem uma coisa e soam como outra — além das vogais, área onde os símbolos e a ortografia se separam quase por completo. Saber onde a dificuldade mora é metade da batalha. Você pode parar de se preparar para quarenta surpresas e focar apenas em dez.
As consoantes são quase todas do alfabeto
Aqui está o conjunto completo de consoantes do inglês americano. Leia primeiro a última coluna — o som cotidiano que cada símbolo representa — e repare quantas delas são simplesmente a própria letra. Cada símbolo leva a uma lição completa sobre aquele som se você quiser treiná-lo; por enquanto, o objetivo é apenas reconhecer a figura e saber qual barulho ela faz.
| Símbolo | Como em | O som no dia a dia |
|---|---|---|
| /p/ | pen | p |
| /b/ | bed | b |
| /t/ | ten | t |
| /d/ | den | d |
| /k/ | kit | k (também escrito c, ck, q) |
| /g/ | get | g duro (como em “gato”) |
| /f/ | fan | f (também ph) |
| /v/ | van | v |
| /θ/ | think | th desvozeado (soprado, sem vibração) |
| /ð/ | this | th vozeado (com vibração) |
| /s/ | sun | s |
| /z/ | zoo | z |
| /ʃ/ | ship | sh (como o “ch” de “chave”) |
| /ʒ/ | vision | o si de vision (idêntico ao nosso j de “janela”) |
| /h/ | hat | h (como o “r” de “rato”) |
| /tʃ/ | chip | ch (como em “tchau”) |
| /dʒ/ | job | o j de job e o “ch” de “tchau” sonorizado |
| /m/ | man | m |
| /n/ | net | n |
| /ŋ/ | sing | ng (um som único anasalado) |
| /l/ | let | l |
| /r/ | red | r americano (próximo do “r” caipira paulista) |
| /w/ | wet | w (como em “quase”) |
| /j/ | yes | y (com som de “i”) |
Vinte e quatro linhas, e num piscar de olhos você nota que a maioria delas não causou nenhum problema. Dezesseis são a pura letra, e você mesmo poderia ter feito essa tabela. O esforço não está em vinte e quatro símbolos novos. Está naquele punhado ali no meio onde a figura deixa de ser a letra que você espera — e esses merecem uma seção só deles.
Há dois pequenos detalhes para notar antes de avançarmos. O símbolo /r/ é a grafia padrão nos dicionários para o r americano, embora alguns livros de fonética o escrevam como /ɹ/ para serem rigorosos quanto ao fato de que o r inglês não é vibrado; você verá os dois, e eles significam o mesmíssimo som. Além disso, alguns desses símbolos trabalham em dobro para cobrir a bagunça da ortografia: /k/ transcreve o c duro em cat, o ck em back e o q em quick, porque o som é o mesmo, não importa qual letra a grafia tenha puxado. É a regra funcionando. O som decide o símbolo; a grafia não tem direito a voto.
Os dez símbolos que surpreendem todo mundo
Esta é a lista curta que vale a pena memorizar — os símbolos em que ler pelo instinto vai te levar ao erro. Dez deles concentram quase toda a confusão de todo o sistema.
O símbolo mais lido de forma errada no inglês é o /j/. Ele não é um j. Ele é o som de y no começo de yes, year e yellow — para o ouvido brasileiro, um i puro. É por isso que cute é escrito /kjut/ e few é /fju/: esse pequeno /j/ captura o deslize de “i” que você faz antes do “u”. Para um alemão, um holandês ou um escandinavo isso é óbvio, porque o j deles já tem som de y. Mas para nós, que lemos j como o som de “janela”, é uma armadilha toda santa vez. A única cura é sobrescrever o instinto de propósito: onde está escrito /j/, diga “i”.
Depois, temos o grupo de sons ingleses escritos com a letra h que ganham seus próprios símbolos limpos e únicos, já que o IPA se recusa a escrever um som com duas letras. Aqui vem uma boa notícia para o brasileiro: esses dois você já tem. /ʃ/ é o sh, o som em ship, e nada mais é do que o “ch” de “chave” e o “x” de “xícara” — o mesmo som que se esconde dentro de machine, sure e de toda terminação em -tion. Seu parceiro vozeado /ʒ/ é o zumbido suave no meio de vision e measure e no fim de garage; é exatamente o nosso j de “janela” e o g de “gelo”, um som que o inglês fala mas nunca deu uma letra própria. Quando esses dois símbolos aparecerem, relaxe: são sons que sua boca já produz mil vezes por dia.
Os dois sons de ch e j americano são escritos como pequenas equipes de dois símbolos que revelam do que eles são feitos: /tʃ/ é o ch de chip — literalmente um /t/ solto num /ʃ/ — e /dʒ/ é o j de job e o g suave de gym — um /d/ solto num /ʒ/. O brasileiro já conhece essa mecânica: o t e o d diante de “i” no Brasil muitas vezes palatalizam (“tia” vira “tchia”, “dia” vira “djia”). O IPA apenas te mostra a receita.
Os dois sons de th formam um par famoso, porque o inglês escreve ambos com as mesmas duas letras, mas o IPA os separa. E aqui está o verdadeiro tropeço do brasileiro, já que nenhum dos dois existe no português: /θ/ é o th soprado e desvozeado em think e bath, que a gente costuma trocar por t ou f; /ð/ é o th vibrante e vozeado em this e mother, que a gente costuma trocar por d ou v. Ponha a mão na garganta e a diferença fica clara: o segundo vibra, o primeiro não. É por isso que os sons de TH ganharam um artigo inteiro. Outro som nasal esconde um truque parecido: /ŋ/, o ng em sing, é um único som produzido no fundo da boca, e não um n seguido de um g forte. A história completa de por que singer não tem um g de verdade está no artigo sobre o NG.
Isso fecha a conta das consoantes. Os dois últimos da lista de memorização obrigatória não são consoantes de fato. O primeiro é o schwa, /ə/, aquele e de cabeça para baixo que escreve o “uh” neutro e relaxado da primeira sílaba de about e da última de sofa; ele ganha sua própria seção mais abaixo porque está por toda parte. O outro é o flap, /ɾ/, a batida rápida da língua na qual o t de water se transforma — e esse, o brasileiro também já tem: é o nosso r brando de “caro” e “barata”. Você não verá o flap na maioria dos dicionários, que mantêm o arrumadinho /t/, mas o verá neste blog e em transcrições fonéticas mais detalhadas. Vale reconhecê-lo de vista, porque é o símbolo por trás do flap-T e do próprio nome SayWaader, transcrito como /ˈwɑɾɚ/.
As vogais, onde os símbolos abandonam as letras
Se as consoantes vieram quase de graça, as vogais são onde o trabalho realmente acontece. O inglês tem cinco letras vogais para dar conta de cerca de quinze a dezesseis sons de vogal, de modo que os símbolos aqui não têm a menor chance de combinar com a ortografia, e de fato não combinam. Existem simplesmente mais sons do que letras. Esta tabela mostra as quatorze vogais e ditongos do dia a dia; o schwa (na próxima seção) e a vogal tônica com som de R fecham a conta de quinze ou dezesseis. Para os brasileiros, a fusão de pares como /i/ e /ɪ/ é o maior tropeço. O detalhamento completo desses pares é o trabalho do artigo sobre as vogais americanas, e você deveria lê-lo em seguida se as vogais forem seu ponto fraco.
| Símbolo | Como em | Fique atento |
|---|---|---|
| /i/ | see | o ee longo; não é a letra i isolada |
| /ɪ/ | sit | o ih curto e relaxado; o som que ship precisa para não virar sheep (brasileiros tendem a juntar os dois num único “i”) |
| /ɛ/ | bed | o eh de bet (como o “é” de “pétala”) |
| /æ/ | cat | o a americano aberto; esse som não existe no português |
| /ɑ/ | father | o ah bem aberto em hot |
| /ɔ/ | saw | o aw arredondado; muitos americanos fundem esse som com o ah |
| /ʊ/ | book | o uu curto e relaxado; não é o “u” fechado (não confunda pull com pool) |
| /u/ | moon | o oo longo e tenso |
| /ʌ/ | fun | o uh forte em cut; é o irmão mais alto do schwa |
| /eɪ/ | day | começa logo acima do eh e desliza para o ee (“ei”) |
| /aɪ/ | my | desliza do ah para o ee (“ai”) |
| /ɔɪ/ | boy | o deslize “oi” |
| /aʊ/ | now | o deslize “au” |
| /oʊ/ | go | desliza do oh para o oo (“ou”); não é um “ô” estático |
Duas coisas nessa tabela fazem a maior parte do estrago, e ambas merecem destaque agora. A primeira é que vários símbolos vêm em pares tensos-e-relaxados (tense/lax) que o inglês separa rigorosamente e o português não: /i/ contra /ɪ/ (sheep contra ship), /u/ contra /ʊ/ (fool contra full). Quando o dicionário te mostra /ɪ/ em vez de /i/, ele está exigindo, precisamente, que você use a vogal curta e relaxada, algo invisível na grafia. A segunda é que as últimas cinco linhas são ditongos, vogais em movimento, e é por isso que cada uma é escrita com dois símbolos: um ponto de partida e a direção do deslize. Duas letras aqui não são dois sons. É um som em movimento.
Uma nota rápida sobre as vogais acompanhadas de R, aquelas em car, bird e o infinito -er de mother. Os dicionários as escrevem como uma vogal mais /r/, então bird aparece como /bɜrd/ e mother termina em /ər/, aquele schwa-com-um-r que você vai rever em breve. No sotaque americano, o r se funde na própria vogal, e a mecânica da língua é o mesmo problema do r consonantal — quem tem o r “caipira” do interior paulista ou mineiro já parte de uma vantagem aqui, porque esse r puxado para trás é primo próximo do americano. O tratamento completo está em O R americano. Para fins de leitura de dicionário, basta entender que um /r/ logo após uma vogal dentro da mesma sílaba significa que a vogal é colorida por ele — não que você deva pausar e adicionar uma consoante separada.
Acento tônico e a outra função do schwa
Duas pequenas marcações em uma transcrição fazem um trabalho colossal, e a maioria dos alunos passa direto por elas. São as marcas de acento tônico (stress), e o inglês vive ou morre pela tonicidade.
O primeiro é um pequeno traço vertical no alto, /ˈ/, e ele fica antes da sílaba tônica principal. O segundo é um traço embaixo, /ˌ/, que marca a tonicidade secundária (mais fraca) em palavras longas. Assim, record como substantivo é /ˈrɛkərd/, com o peso na frente, e record como verbo é /rɪˈkɔrd/, com o peso atrás. Mover esse tracinho solto conduz toda a mudança: é ele que decide qual sílaba permanece cheia e qual se reduz, e as vogais se deslocam junto com o acento. A marca parece um apóstrofo perdido, e é exatamente por isso que as pessoas a ignoram — e ignorá-la é a receita certa para pôr o acento na sílaba errada de uma palavra que você de resto pronunciaria perfeitamente. A lógica por trás disso é o tema do artigo sobre tonicidade das palavras; por ora, prometa a si mesmo que vai parar de pular o tracinho.
O acento tônico também é o momento em que o schwa justifica sua fama. Vale dar uma segunda olhada nele porque é, em termos de pura frequência, o som mais comum do inglês. O símbolo /ə/ transcreve um “uh” curto e neutro, feito com a boca totalmente relaxada (ele não existe como fonema no português, e é justamente por isso que dá tanto trabalho). É a sílaba que uma vogal vira quando perde o acento. Veja acontecer: a palavra photograph mantém um /æ/ cheio e claro na última sílaba, FOH-tuh-graf, mas em photography o acento pula para a segunda sílaba e aquela mesma vogal derrete num schwa, virando fuh-TAH-gruh-fee. As letras não mudaram. O acento se moveu e as vogais átonas desabaram para o schwa.
É por isso que a transcrição de uma palavra longa em inglês é, quase sempre, um par de vogais claras cercadas por uma multidão de /ə/. Na fala real, apenas as sílabas tônicas guardam sua vogal original; todo o resto se reduz. O schwa no dicionário marca uma sílaba que deve sair fraca, rápida e engolida. Lutar para dar a essa sílaba uma vogal cheia e pura é o caminho mais rápido para soar estrangeiro. O schwa tem seu próprio artigo porque esse único hábito — reduzir as sílabas certas — separa o ritmo fluente do ritmo engessado melhor do que o treino de qualquer consoante isolada.
Como ler o dicionário, da esquerda para a direita
Vamos testar em um verbete real. Procure por water num bom dicionário americano e você verá algo muito próximo de /ˈwɔtər/. Leia da mesma forma que leria uma palavra, da esquerda para a direita, um símbolo por vez. O /ˈ/ de abertura avisa que o peso recai sobre a sílaba seguinte. /w/ é apenas o w. /ɔ/ é a vogal aw arredondada — embora muitos americanos usem o ah aberto de father aqui, o dicionário está apenas te dando uma escolha padrão. /t/ é um t normal no papel. E então vem o /ər/, o schwa-com-r, aquela terminação átona colorida pelo r. Juntando tudo, você tem a pronúncia cuidadosa e limpa que o dicionário registra.
O que o verbete não te mostra é o que sua boca vai fazer em seguida, e vale entender essa lacuna. Em voz alta, numa conversa normal, um americano não solta um /t/ nítido ali; o t está entre duas vogais com a sílaba tônica logo antes, então vira aquela batidinha rápida da língua, o flap. A pronúncia real e corrida se aproxima muito mais de [ˈwɑɾɚ], waa-der. O dicionário te deu a versão idealizada, os blocos de que a palavra é feita; o flap é um evento previsível que acontece com essas peças na fala rápida. O dicionário não está errado, apenas trabalhando num nível mais grosso de detalhe. A próxima seção explica justamente os colchetes que indicam em que nível você está operando.
Mais um exemplo para ver o marcador de acento tônico e o schwa trabalhando juntos: Banana é /bəˈnænə/. Começa com schwa, vai para a tônica /næ/ com aquele a claro e aberto, e termina num schwa final. Três sílabas, mas apenas a do meio é alta e clara, enquanto as das pontas são o mesmíssimo /ə/ fraco, apesar de a grafia usar a letra “a” para as três. Se você lê a transcrição, ela grita isso para você, buh-NAN-uh — que é exatamente a informação que a grafia da palavra omitiu. Essa é a grande habilidade de decodificação.
Barras, colchetes e por que os dicionários discordam
Você deve ter notado que às vezes os símbolos estão entre barras, /ˈwɔtər/, e às vezes entre colchetes, [ˈwɑɾɚ]. A diferença é real, mas suave, e não há por que perder o sono com isso. As barras indicam uma transcrição fonêmica: a estrutura idealizada de que a palavra é feita, que é o que os dicionários imprimem. Os colchetes indicam a transcrição fonética: o som físico real assim que ele sai da sua boca, incluindo as pequenas mudanças automáticas, como o flap-T ou aquele sopro extra de ar num p tônico. Fonêmico é a partitura; fonético é a performance. Este blog usa barras para a partitura e colchetes quando quer te mostrar a performance (o flap em water sendo o motivo clássico).
Isso também explica a confusão que as pessoas sentem quando comparam dois dicionários pela primeira vez: eles nem sempre usam os mesmos símbolos para a mesma palavra, e nenhum dos dois está errado. Algumas discordâncias refletem variações genuínas na forma como os americanos falam. O par cot/caught é o melhor exemplo: muitos falantes nativos fundiram o /ɔ/ de caught no /ɑ/ de cot, então um dicionário escreve thought com /ɔ/ e outro com /ɑ/, ambos descrevendo uma fala americana real. A fusão cot-caught trata desse caso a fundo.
Outras diferenças são pura questão de estilo editorial: um livro escreve o r americano como /r/ e outro como /ɹ/; um escreve a vogal de day como /eɪ/ e outro simplifica para /e/; um marca a terminação -er com o símbolo compacto /ɝ/ e o outro prefere separar em /ər/. É o mesmo som, escrito com uma caligrafia um pouco diferente. Uma vez que você domina o grupo principal, você começa a enxergar além da estética e percebe que os dicionários concordam em quase tudo.
Leia em voz alta
Ler o IPA só vira algo automático se você colocar em prática. Há dois exercícios que valem dez minutos do seu tempo. Primeiro, decodifique palavras isoladas “a frio”. Cubra a coluna da direita, leia cada transcrição em voz alta guiando-se apenas pelos símbolos e, depois, descubra a resposta para checar. O objetivo é olhar para o /ʒ/ ou para o /j/ e ouvi-los na sua mente instantaneamente, sem precisar de tradução.
| Em IPA | A palavra |
|---|---|
| /jɛs/ | yes |
| /ˈvɪʒən/ | vision |
| /θɪŋ/ | thing |
| /dʒɑb/ | job |
| /tʃip/ | cheap |
| /ˈsɪŋər/ | singer |
| /kjut/ | cute |
| /əˈbaʊt/ | about |
Em seguida, leia esses mesmos símbolos traiçoeiros de volta no contexto das frases completas. Diga cada linha em voz alta, apoie-se na refonetição embaixo dela e reproduza o áudio para comparar com a voz nativa. Se preferir, ouça antes de tentar.
- Yes, the year is young. YES, the YEER is YUNG.
- Her vision is unusual. Her VIZH-un is un-YOO-zhoo-ul.
- I think this is the thing. I THINK THIS is the THING.
- The singer chose a job. The SING-er CHOHZ a JAHB.
- A photograph, not photography. A FOH-tuh-graf, not fuh-TAH-gruh-fee.
- The water in the bottle. The WAA-der in the BAH-dul.
- A few cute beauties. A FYOO KYOOT BYOO-teez.
- She bought a record to record. She bought a REK-erd to re-KORD.
Se o símbolo /j/ ainda faz você querer soltar um som de “jota”, leia devagar as duas primeiras linhas até o som correto fixar. Esse único símbolo gera mais leituras equivocadas do que todo o resto da tabela combinada.
Perguntas Frequentes
O IPA é a sigla em inglês para o Alfabeto Fonético Internacional, um sistema de escrita no qual cada símbolo representa exatamente um som, e esse som nunca muda. Os dicionários o usam porque a grafia normal do inglês é um guia terrível e pouco confiável para a pronúncia: as mesmas letras podem gerar sons diferentes (though, through, tough) e o mesmo som pode se esconder por trás de grafias diferentes (o ee longo aparece em see, sea, machine). O IPA resolve esse problema dando a cada som um símbolo fixo. Assim, uma transcrição como /ˈwɔtər/ revela precisamente como se diz a palavra, independentemente da grafia tradicional dela.
Cerca de quarenta, o que é bem menos que a tabela internacional completa de aproximadamente 160. O inglês americano emprega em torno de vinte e quatro símbolos consonantais e quinze ou dezesseis símbolos vocálicos. O peso é muito menor do que parece, porque a maioria das consoantes é exatamente a letra que você espera que seja (/b/ é b, /m/ é m). O esforço real se resume a um grupo de cerca de dez consoantes que não parecem com o som que produzem, mais as vogais, onde os símbolos e as letras divergem quase por completo.
Porque o IPA atribuiu a cada símbolo um som fixo extraído de como ele era usado em uma variedade de idiomas, e o /j/ ficou com o som de “y” presente no começo de yes. No alemão, no holandês e nos idiomas escandinavos, a letra j já é lida com som de “y”, então a escolha soou bem natural para os linguistas que montaram o sistema. A pegadinha sobra para quem usa a letra j para outros sons: nosso “jota” do português tem som de /ʒ/, no inglês essa mesma letra vale /dʒ/ (como em job) e no espanhol ela ganha aquele som arranhado na garganta, o /x/. Ou seja, memorize: cute é transcrito como /kjut/ e you como /ju/, pois o /j/ é sempre um som de y (“i”).
Aquele símbolo é o schwa, /ə/, um som neutro de “uh” curtinho, produzido com a boca totalmente relaxada. Ele marca uma sílaba átona (fraca) cuja vogal foi reduzida, e é simplesmente o som mais comum do inglês falado. Quando você o vê, a mensagem é clara: aquela sílaba deve ser proferida de maneira rápida, fraca e quase engolida, e não com uma vogal forte e pura. Em /əˈbaʊt/ (about), a primeira sílaba é um schwa muito sutil, e todo o peso do acento tônico cai na segunda. Tentar pronunciar aquele primeiro “A” de forma aberta é a marca registrada de um sotaque estrangeiro.
As barras diagonais marcam uma transcrição fonêmica: os sons idealizados dos quais a palavra é construída, que é o que os dicionários imprimem: /ˈwɔtər/. Os colchetes indicam uma transcrição fonética: o som físico real quando ele sai da sua boca, incluindo as mudanças automáticas, como o flap-T americano: [ˈwɑɾɚ]. O fonêmico é o projeto na prancheta; o fonético é a casa de pé. Para quem está aprendendo, as barras costumam ser a referência que você quer, com os colchetes mostrando o que de fato acontece na fala rápida.
Há dois motivos, e nenhum deles significa que um dos dicionários está errado. O primeiro é a variação genuína nos sotaques dos EUA: muitos americanos fundem as vogais de cot e caught, então um dicionário pode transcrever thought com /ɔ/ e outro com /ɑ/ — ambos reportando a realidade. O segundo motivo é estilo editorial: o r americano pode ser escrito como /r/ em alguns livros e como /ɹ/ em outros, e a vogal -er acentuada pode aparecer como o símbolo /ɝ/ ou por extenso como /ər/. São os mesmos sons transcritos com “caligrafias” levemente diferentes. Assim que você pegar o jeito dos símbolos principais, essas escolhas cosméticas deixarão de confundir você.
Nas próximas vezes que for pesquisar uma palavra, mantenha uma tabela de pronúncia do IPA aberta ao lado e tente ler os símbolos antes de confiar nas letras. Aqueles cerca de quarenta desenhos vão parar de parecer código alienígena em questão de uma ou duas semanas de uso constante e, a partir de então, os caracteres entre barras oblíquas serão a única parte do verbete do dicionário em que você poderá confiar de olhos fechados.